Transtorno Dismórfico Corporal (Dismorfofobia)

Transtorno Dismórfico Corporal (Dismorfofobia)

Transtorno Dismórfico Corporal (Dismorfofobia) Dr. Gabriel Lopes Psiquiatra

Critérios Diagnósticos

  1. Preocupação com um ou mais defeitos ou falhas percebidas na aparência física que não são observáveis ou que parecem leves para os outros.
  2. Em algum momento durante o curso do transtorno, o indivíduo executou comportamentos repetitivos (p. ex., verificar-se no espelho, arrumar-se excessivamente, beliscar a pele, buscar tranquilização) ou atos mentais (p. ex., comparando sua aparência com a de outros) em resposta às preocupações com a aparência.
  3. A preocupação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
  4. A preocupação com a aparência não é mais bem explicada por preocupações com a gordura ou o peso corporal em um indivíduo cujos sintomas satisfazem os critérios diagnósticos para um transtorno alimentar.

Especificar se:

Com dismorfia muscular: O indivíduo está preocupado com a ideia de que sua estrutura corporal é muito pequena ou insuficientemente musculosa. O especificador é usado mesmo que o indivíduo esteja preocupado com outras áreas do corpo, o que com frequência é o caso.

Especificar se: Indicar o grau de insight em relação às crenças do transtorno dismórfico corporal (p. ex., “Eu pareço feio” ou “Eu pareço deformado”).

Com insight bom ou razoável: O indivíduo reconhece que as crenças do transtorno dismórfico corporal são definitiva ou provavelmente não verdadeiras ou que podem ou não ser verdadeiras.

Com insight pobre: O indivíduo acredita que as crenças do transtorno dismórfico corporal são provavelmente verdadeiras.

Com insight ausente/crenças delirantes: O indivíduo está completamente convencido de que as crenças do transtorno dismórfico corporal são verdadeiras.

Características Diagnósticas

Os indivíduos com transtorno dismórfico corporal (anteriormente conhecido como dismorfofobia) são preocupados com um ou mais defeitos ou falhas percebidas em sua aparência física, que acreditam parecer feia, sem atrativos, anormal ou deformada (Critério A). As falhas percebidas não são observáveis ou parecem apenas leves para outros indivíduos. As preocupações variam desde parecer “sem atrativos” ou “não adequado” até parecer “hediondo” ou “como um monstro”. Podem focar em uma ou mais áreas do corpo, mais comumente a pele (p. ex., percepção de acne, cicatrizes, rugas, palidez), os pelos (p. ex., cabelo “escasso” ou pelo corporal ou facial “excessivo”) ou o nariz (p. ex., o tamanho ou formato). No entanto, qualquer área do corpo pode ser foco de preocupação (p. ex., olhos, dentes, peso, estômago, mamas, pernas, tamanho ou formato do rosto, lábios, queixo, sobrancelhas, genitais). Algumas pessoas são preocupadas com a percepção de assimetria de áreas corporais. As preocupações são intrusivas, indesejadas, tomam tempo (ocorrendo, em média, de 3 a 8 horas por dia) e geralmente são difíceis de resistir ou controlar.

Os comportamentos repetitivos ou atos mentais excessivos (p. ex., comparações) são executados em resposta à preocupação (Critério B). O indivíduo se sente compelido a executar esses comportamentos, os quais não são prazerosos e podem aumentar a ansiedade e a disforia. Eles geralmente tomam tempo e são difíceis de resistir ou controlar. Os comportamentos comuns são comparar a própria aparência com a de outros indivíduos; verificar repetidamente os defeitos percebidos em espelhos ou em outras superfícies refletoras ou examiná-los diretamente; arrumar-se de maneira excessiva (p. ex., penteando, barbeando, depilando ou arrancando os pelos); camuflar (p. ex., aplicando maquiagem repetidamente ou cobrindo as áreas em questão com coisas como chapéu, roupas, maquiagem ou cabelo); procurar tranquilização acerca do aspecto das falhas percebidas; tocar as áreas em questão para verificá-las; fazer exercícios ou levantamento de peso em excesso; e procurar procedimentos estéticos. Alguns indivíduos se bronzeiam de forma excessiva (p. ex., para escurecer a pele “pálida” ou diminuir a acne percebida), mudam constantemente de roupa (p. ex., para camuflar os defeitos percebidos) ou compram de maneira compulsiva (p. ex., produtos de beleza). Arrancar a pele compulsivamente com a intenção de melhorar os defeitos percebidos é comum e pode causar lesões cutâneas, infecções ou ruptura de vasos sanguíneos. A preocupação deve causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério C); geralmente ambos estão presentes. O transtorno dismórfico corporal deve ser diferenciado de um transtorno alimentar.

A dismorfia muscular, uma forma de transtorno dismórfico corporal que ocorre quase exclusivamente no sexo masculino, consiste na preocupação com a ideia de que o próprio corpo é muito pequeno ou insuficientemente magro ou musculoso. Os indivíduos com essa forma de transtorno, na verdade, têm uma aparência corporal normal ou são ainda mais musculosos. Eles também podem ser preocupados com outras áreas do corpo, como a pele ou o cabelo. A maioria (mas não todos) faz dieta, exercícios e/ou levanta pesos excessivamente, às vezes causando danos ao corpo. Alguns usam esteroides anabolizantes perigosos e outras substâncias para tentar deixar seu corpo maior e mais musculoso. O transtorno dismórfico corporal por procuração é uma forma de transtorno dismórfico corporal em que os indivíduos são preocupados com defeitos que eles percebem na aparência de outra pessoa.

O insight relativo às crenças do transtorno dismórfico corporal pode variar de bom até ausente/delirante (i.e., crenças delirantes que consistem na completa convicção de que a visão que o indivíduo tem da sua aparência é precisa e não distorcida). Em média, o insight é pobre; um terço ou mais dos indivíduos atualmente tem crenças delirantes de transtorno dismórfico corporal. Aqueles com transtorno dismórfico corporal delirante tendem a ter maior morbidade em algumas áreas (suicidalidade), mas isso parece ser justificado por sua tendência a ter sintomas mais graves.

Características Associadas que Apoiam o Diagnóstico Muitos

indivíduos com transtorno dismórfico corporal têm ideias ou delírios de referência, acreditando que outras pessoas prestam especial atenção neles ou caçoam deles devido a sua aparência. O transtorno dismórfico corporal está associado a altos níveis de ansiedade, ansiedade social, esquiva social, humor deprimido, neuroticismo e perfeccionismo, bem como a baixa extroversão e baixa autoestima. Muitos indivíduos têm vergonha da sua aparência e do foco excessivo em seu visual e têm relutância em revelar suas preocupações aos outros. A maioria dessas pessoas faz tratamento estético para tentar melhorar seus defeitos percebidos. Tratamento dermatológico e cirurgia são mais comuns, mas qualquer tipo de tratamento (p. ex., dentário, eletrólise) pode ser feito. Às vezes, os indivíduos podem realizar cirurgia em si mesmos. O transtorno dismórfico corporal parece ter uma resposta pobre a tais tratamentos e por vezes piora. Algumas pessoas tomam providências legais ou são violentas com o clínico porque estão insatisfeitas com o resultado estético.

O transtorno dismórfico corporal foi associado a disfunção executiva e anormalidades no processamento visual, com uma propensão a analisar e codificar detalhes em vez de aspectos holísticos ou configuracionais dos estímulos visuais. Os indivíduos com esse transtorno tendem a interpretar de forma negativa e ameaçadora expressões faciais ou cenários ambíguos.

Prevalência

A prevalência ponto entre os adultos norte-americanos é de 2,4% (2,5% no sexo feminino e 2,2% no masculino). Fora dos Estados Unidos (i.e., na Alemanha), a prevalência atual é de 1,7 a 1,8%, com uma distribuição entre os gêneros similar à dos Estados Unidos. A prevalência atual é de 9 a 15% entre pacientes dermatológicos, 7 a 8% entre pacientes norte-americanos de cirurgia estética, 3 a 16% entre pacientes de cirurgia estética em outros países (a maioria dos estudos), 8% entre pacientes adultos de ortodontia e 10% entre pacientes que se apresentam para cirurgia facial ou maxilofacial.

Desenvolvimento e Curso

A média de idade de início do transtorno é 16 a 17 anos, a mediana de idade de início é 15 anos, e a idade mais comum de início é 12 a 13 anos. Dois terços dos indivíduos têm início do transtorno antes dos 18 anos. Os sintomas subclínicos do transtorno dismórfico corporal começam, em média, aos 12 ou 13 anos. As preocupações subclínicas geralmente se desenvolvem de forma gradual até o transtorno completo, embora alguns indivíduos experimentem o início abrupto do transtorno. O transtorno dismórfico corporal parece ser crônico, embora uma melhora seja provável quando é feito tratamento baseado em evidências. As características clínicas do transtorno parecem, em grande parte, similares em crianças/adolescentes e adultos. O transtorno também ocorre em idosos, mas pouco é sabido a seu respeito nessa faixa etária. Os indivíduos com início do transtorno antes dos 18 anos têm maior probabilidade de tentar suicídio, de apresentar mais comorbidade e de ter início gradual do transtorno (em vez de agudo) do que aqueles com transtorno dismórfico corporal com início na idade adulta.

Fatores de Risco e Prognóstico

Ambientais: O transtorno dismórfico corporal foi associado a altas taxas de negligência e abuso infantil.

Genéticos e fisiológicos: A prevalência de transtorno dismórfico corporal é elevada em parentes de primeiro grau de indivíduos com TOC.

Questões Diagnósticas Relativas à Cultura

O transtorno dismórfico corporal tem sido relatado em todo o mundo. Parece que pode ter mais semelhanças do que diferenças entre as raças e culturas, mas os valores e preferências culturais podem influenciar o conteúdo dos sintomas até certo ponto. O taijin kyofusho, incluso no sistema diagnóstico japonês tradicional, tem um subtipo similar ao transtorno dismórfico corporal: shubo-kyofu (“a fobia de um corpo deformado”).

Questões Diagnósticas Relativas ao Gênero

Parece haver mais semelhanças do que diferenças entre os sexos em relação à maioria das características clínicas – por exemplo, áreas do corpo que desagradam, tipos de comportamentos repetitivos, gravidade dos sintomas, suicidalidade, comorbidade, curso da doença e realização de procedimentos estéticos para o transtorno dismórfico corporal. Entretanto, indivíduos do sexo masculino têm mais probabilidade de apresentar preocupações genitais, e os do sexo feminino, mais probabilidade de apresentar um transtorno alimentar comórbido. A dismorfia muscular ocorre quase exclusivamente no sexo masculino.

Risco de Suicídio

As taxas de ideação suicida e tentativas de suicídio são altas tanto em adultos quanto em crianças/adolescentes com transtorno dismórfico corporal. Além disso, o risco de suicídio parece alto em adolescentes. Uma proporção substancial de indivíduos atribui a ideação suicida ou as tentativas de suicídio principalmente às suas preocupações com a aparência. As pessoas com transtorno dismórfico corporal têm muitos fatores de risco para suicídio completado, tais como altas taxas de ideação suicida e de tentativas de suicídio, características demográficas associadas a suicídio e altas taxas de transtorno depressivo maior comórbido.

Consequências Funcionais do Transtorno Dismórfico Corporal

Quase todos os indivíduos com transtorno dismórfico corporal experimentam funcionamento psicossocial prejudicado devido às suas preocupações com a aparência. O prejuízo pode variar de moderado (p. ex., esquiva de algumas situações sociais) até extremo e incapacitante (p. ex., ficar completamente confinado à sua casa). Em média, o funcionamento psicossocial e a qualidade de vida são acentuadamente pobres. Os sintomas mais graves do transtorno dismórfico corporal estão associados a funcionamento e qualidade de vida mais pobres. A maioria dos indivíduos experimenta comprometimento em seu trabalho, no desempenho acadêmico ou de papéis (p. ex., como pai ou cuidador), que são com frequência graves (p. ex., desempenho pobre, faltas à escola ou ao trabalho, não trabalhar). Cerca de 20% dos jovens com o transtorno relatam evasão escolar principalmente devido aos seus sintomas. O prejuízo no funcionamento social (p. ex., atividades sociais, relacionamentos, intimidade), incluindo esquiva, é comum. Os indivíduos podem ficar confinados à sua casa devido aos sintomas do transtorno, por vezes durante anos. Uma alta proporção de adultos e adolescentes é internada em hospitais psiquiátricos.

Diagnóstico Diferencial

 Preocupações normais com a aparência e defeitos físicos claramente perceptíveis: O transtorno dismórfico corporal diferencia-se das preocupações normais com a aparência por se caracterizar por preocupações excessivas relacionadas à aparência e por comportamentos repetitivos que tomam tempo que também são geralmente difíceis de resistir ou controlar e que causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento. Os defeitos físicos que são claramente perceptíveis (i.e., não leves) não são diagnosticados como transtorno dismórfico corporal. No entanto, beliscar a pele como sintoma de transtorno dismórfico corporal pode causar lesões e cicatrizes visíveis; nesses casos, o transtorno deve ser diagnosticado.

Transtornos alimentares: Em um indivíduo com transtorno alimentar, as preocupações com ser gordo são consideradas um sintoma do transtorno alimentar em vez de transtorno dismórfico corporal. No entanto, preocupações com o peso podem ocorrer no transtorno dismórfico corporal. Os transtornos alimentares e o transtorno dismórfico corporal podem ser comórbidos; nesse caso, ambos devem ser diagnosticados.

Outros transtornos obsessivo-compulsivos e transtornos relacionados: As preocupações e os comportamentos repetitivos do transtorno dismórfico corporal diferem das obsessões e compulsões do TOC na medida em que o primeiro foca somente na aparência. Esses transtornos têm outras diferenças, como insight mais pobre no transtorno dismórfico corporal. Quando arrancar a pele tem a intenção de melhorar a aparência dos defeitos nela percebidos, deve ser diagnosticado transtorno dismórfico corporal em vez de transtorno de escoriação (skin-picking). Quando a remoção de pelos (depilar, arrancar ou outros tipos de remoção) tem a intenção de melhorar defeitos percebidos na aparência do pelo facial ou corporal, o transtorno dismórfico corporal é diagnosticado em vez de tricotilomania (transtorno de arrancar o cabelo).

Transtorno de ansiedade de doença: Os indivíduos com transtorno dismórfico corporal não são preocupados com ter ou adquirir uma doença grave e não têm níveis particularmente elevados de somatização.

Transtorno depressivo maior: A preocupação proeminente com a aparência e os comportamentos repetitivos excessivos no transtorno dismórfico corporal diferenciam-no do transtorno depressivo maior. Entretanto, o transtorno depressivo maior e os sintomas depressivos são comuns em indivíduos com transtorno dismórfico corporal, com frequência parecendo ser secundários ao sofrimento e ao prejuízo causados por essa perturbação. O transtorno dismórfico corporal deve ser diagnosticado em indivíduos deprimidos se os critérios diagnósticos para ele forem satisfeitos.

Transtornos de ansiedade: Ansiedade social e evitação são comuns no transtorno dismórfico corporal. No entanto, diferentemente do transtorno de ansiedade social (fobia social), da agorafobia e do transtorno da personalidade evitativa, o transtorno dismórfico corporal inclui preocupação proeminente relacionada à aparência, que pode ser delirante, e comportamentos repetitivos; já a ansiedade social e a evitação devem-se a preocupações acerca de defeitos percebidos na aparência e à crença ou ao medo de que outras pessoas considerem esses indivíduos feios, de que os ridicularizem ou os rejeitem devido às suas características físicas. Diferentemente do transtorno de ansiedade generalizada, a ansiedade e a preocupação no transtorno dismórfico corporal focam nas falhas percebidas na aparência.

Transtornos psicóticos: Muitos indivíduos com transtorno dismórfico corporal têm crenças delirantes sobre a aparência (i.e., completa convicção de que sua visão dos seus defeitos percebidos é correta), o que é diagnosticado como transtorno dismórfico corporal, com insight ausente/ crenças delirantes, não como transtorno delirante. Ideias relacionadas à aparência ou delírios de referência são comuns no transtorno dismórfico corporal; contudo, diferentemente da esquizofrenia ou do transtorno esquizoafetivo, o transtorno dismórfico corporal envolve preocupações proeminentes com a aparência e comportamentos repetitivos relacionados, e o comportamento desorganizado e outros sintomas psicóticos estão ausentes (exceto pelas crenças acerca da aparência, que podem ser delirantes).

Outros transtornos e sintomas: O transtorno dismórfico corporal não deve ser diagnosticado se a preocupação estiver limitada a desconforto ou a um desejo de se livrar de características sexuais primárias e/ou secundárias em um indivíduo com disforia de gênero ou se a preocupação focar na crença de que o indivíduo emite um odor corporal desagradável ou ofensivo, como na síndrome de referência olfativa (que não é um transtorno do DSM-5). O transtorno de identidade da integridade corporal (apotenofilia) (que não é um transtorno do DSM-5) envolve um desejo de ter um membro amputado para corrigir uma experiência de inadequação entre a noção de identidade corporal de uma pessoa e sua verdadeira anatomia. No entanto, a preocupação não foca na aparência do membro, como seria no transtorno dismórfico corporal. Koro, um transtorno relacionado culturalmente que em geral ocorre em epidemias no sudoeste da Ásia, consiste no medo de que o pênis (lábios, mamilos ou mamas nas mulheres) esteja encolhendo ou se retraindo e vá desaparecer no abdome, com frequência acompanhado de uma crença de que isso resultará em morte. O koro difere do transtorno dismórfico corporal em vários aspectos, incluindo um foco na morte em vez da preocupação com a feiura percebida. A preocupação dismórfica (que não é um transtorno do DSM-5) é um construto muito mais amplo do que o transtorno dismórfico corporal e não é equivalente a ele. Envolve sintomas que refletem uma preocupação excessiva com falhas leves ou imaginadas na aparência.

Comorbidade

O transtorno depressivo maior é o transtorno comórbido mais comum, com início geralmente após o do transtorno dismórfico corporal. Transtorno de ansiedade social (fobia social) comórbido, TOC e transtornos relacionados a substâncias também são comuns.

 

Fonte: DSM-V

O texto acima possui caráter exclusivamente informativo. Jamais empreenda qualquer tipo de tratamento ou se automedique sem a orientação de um especialista.
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