Transtorno de Hipersonolência

Transtorno de Hipersonolência

Hipersonolência Dr. Gabriel Lopes Psiquiatra

Critérios Diagnósticos

  1. Relato do próprio indivíduo de sonolência excessiva (hipersonolência) apesar de o período principal do sono durar no mínimo 7 horas, com pelo menos um entre os seguintes sintomas:
    1. Períodos recorrentes de sono ou de cair no sono no mesmo dia.
    2. Um episódio de sono principal prolongado de mais de 9 horas por dia que não é reparador (i.e., não é revigorante).
    3. Dificuldade de estar totalmente acordado depois de um despertar abrupto.
  2. A hipersonolência ocorre pelo menos três vezes por semana, durante pelo menos três meses.
  3. A hipersonolência é acompanhada de sofrimento significativo ou de prejuízo no funcionamento cognitivo, social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
  4. A hipersonolência não é mais bem explicada por e nem ocorre exclusivamente durante o curso de outro transtorno do sono (p. ex., narcolepsia, transtorno do sono relacionado à respiração, transtorno do sono-vigília do ritmo circadiano ou parassonia).
  5. A hipersonolência não é atribuída aos efeitos fisiológicos de alguma substância (p. ex., abuso de drogas, medicamentos).
  6. A coexistência de transtornos mentais e de condições médicas não explica adequadamente a queixa predominante de hipersonolência.

Especificar se:

Com transtorno mental, incluindo transtornos relacionados ao uso de substâncias.

Com condição médica

Com outro transtorno do sono

Especificar se:

 Agudo: Duração de menos 1 mês.

 Subagudo: Duração de 1 a 3 meses.

 Persistente: Duração de mais de 3 meses.

Especificar a gravidade atual:

Especificar a gravidade com base no grau de dificuldade para manter o estado de alerta durante o dia, manifestado pela ocorrência de ataques múltiplos de sonolência incontrolável em um determinado dia, ocorrendo, por exemplo, enquanto o indivíduo estiver sentado, dirigindo, visitando amigos ou trabalhando.

Leve: Dificuldade em manter o estado de alerta durante o dia por um período de 1 a 2 dias por semana.

Moderada: Dificuldade em manter o estado de alerta durante o dia por um período de 3 a 4 dias por semana.

Grave: Dificuldade em manter o estado de alerta durante o dia por um período 5 a 7 dias por semana.

Características Diagnósticas

Hipersonolência é um termo diagnóstico bastante amplo que inclui sintomas de quantidade excessiva de sono (p. ex., sono noturno estendido ou sono diurno involuntário), qualidade deteriorada de vigília (i.e., propensão para dormir durante o estado de vigília revelada pela dificuldade em acordar ou pela incapacidade de permanecer desperto quando necessário) e inércia do sono (i.e., um período de alteração no desempenho e de vigilância diminuída após acordar de um episódio de sono regular ou de um cochilo) (Critério A). Os indivíduos com esse transtorno conseguem dormir rapidamente e apresentam boa eficiência no sono (> 90%). Podem ter dificuldade para acordar pela manhã, às vezes parecendo confusos, combativos ou atáxicos. Com frequência, essa alteração prolongada no estado de alerta durante a transição sono-vigília é conhecida por inércia do sono (i.e., embriaguez do sono). Essa condição pode ocorrer também ao despertar de um cochilo durante o dia. Durante esse período, embora o indivíduo aparentemente esteja desperto, há um declínio na habilidade motora, o comportamento poderá ser inadequado, podendo ocorrer lapsos de memória, desorientação no tempo e no espaço e uma sensação de atordoamento. O tempo de duração pode variar de minutos a horas.

A necessidade persistente de dormir poderá levar a um comportamento automático (geralmente um tipo bastante rotineiro e de baixa complexidade) que o indivíduo desempenha com pouca ou nenhuma lembrança subsequente. Por exemplo, as pessoas podem pensar que dirigiram por vários quilômetros desde o ponto que imaginavam estar, sem perceber que estiveram dirigindo “automaticamente” durantes os minutos precedentes. Para alguns indivíduos com transtorno de hipersonolência, o episódio de sono principal (para a maioria das pessoas, o sono noturno) tem duração de 9 horas ou mais. No entanto, com frequência, o sono não é reparador e é seguido pela dificuldade de acordar no horário normal. Para outras pessoas com transtorno de hipersonolência, o episódio de sono principal dura o tempo do sono noturno normal (6 a 9 horas). Nesses casos, a sonolência excessiva se caracteriza por vários cochilos diurnos involuntários. Esses cochilos diurnos tendem a ser relativamente longos (em geral duram 1 hora ou mais), não são considerados reparadores (i.e., não são revigorantes) e não melhoram o estado de alerta. Indivíduos com hipersonolência têm cochilos diurnos quase todos os dias, seja qual for o tempo de duração do sono noturno. A qualidade subjetiva do sono pode ou não ser relatada como boa. Em geral, eles sentem a sonolência se desenvolver ao longo de um período de tempo em vez de vivenciarem “ataques” repentinos de sono. Normalmente, os episódios involuntários de sono ocorrem em situações de baixa estimulação e de baixa atividade (p. ex., assistindo a palestras, lendo, vendo televisão ou dirigindo em longas distâncias), embora em casos mais graves se manifestem em situações de alta concentração, como no trabalho, em reuniões ou em encontros sociais.

Características Associadas que Apoiam o Diagnóstico

Embora comuns no transtorno de hipersonolência, fatos como sono não reparador, comportamento automático, dificuldade para acordar pela manhã e inércia do sono podem também ser observados em uma variedade de condições, incluindo narcolepsia. Aproximadamente 80% dos indivíduos com hipersonolência relatam que não têm sono reparador, e o mesmo percentual de pessoas sente dificuldade para acordar pela manhã. A inércia do sono, embora menos comum (i.e., ocorre em 36 a 50% das pessoas com transtorno de hipersonolência), é altamente específica de hipersonolência. Com frequência, cochilos curtos (i.e., duração de menos de 30 minutos) não são revigorantes. Na maioria das vezes, aparentemente, os indivíduos com hipersonolência são sonolentos e podem até adormecer na sala de espera do médico.

Um subgrupo de indivíduos com transtorno de hipersonolência tem história familiar de sono excessivo e, da mesma forma, apresenta sintomas de disfunção no sistema nervoso autônomo, incluindo recorrência de cefaleias do tipo vascular, reatividade do sistema vascular periférico (fenômeno de Raynaud) e desmaios.

Prevalência

O diagnóstico de aproximadamente 5 a 10% dos indivíduos que fazem consulta em clínicas de transtornos do sono com queixas de sonolência durante o dia é de transtorno de hipersonolência. Estima-se que cerca de 1% da população em geral da Europa e dos Estados Unidos tenha episódios de inércia do sono. A frequência de hipersonolência é relativamente a mesma nos sexos masculino e feminino.

Desenvolvimento e Curso

O transtorno de hipersonolência tem curso persistente, com evolução progressiva na gravidade dos sintomas. Nos casos mais extremos, os episódios de sono podem durar até 20 horas. Entretanto, a duração média do sono noturno gira em torno de 9 horas e 30 minutos. Embora muitos indivíduos com hipersonolência sejam capazes de diminuir o tempo de sono nos dias úteis, ele aumenta substancialmente nos fins de semana e feriados (em até 3 horas). Além de muito difíceis, os despertares são acompanhados de episódios de inércia do sono em aproximadamente 40% dos casos. Na maior parte dos casos, a hipersonolência manifesta-se plenamente no fim da adolescência ou no início da fase adulta, com idade média de início de 17 a 24 anos. Em média, o diagnóstico em pessoas com transtorno de hipersonolência ocorre entre 10 e 15 anos depois do surgimento dos sintomas. Os casos pediátricos são raros.

A hipersonolência tem início progressivo, com os sintomas se iniciando entre os 15 e os 25 anos, com progressão gradual variando de semanas a meses. Para a maioria dos indivíduos, o curso é persistente e estável, a menos que o tratamento seja iniciado. O desenvolvimento de outros transtornos do sono (p. ex., transtorno do sono relacionado à respiração) poderá agravar o grau de sonolência. Embora a hiperatividade talvez seja um dos sinais de sonolência diurna que se apresentam em crianças, os cochilos voluntários aumentam com a idade. Esse fenômeno normal é distinto de hipersonolência.

Fatores de Risco e Prognóstico

 Ambientais: A hipersonolência pode aumentar temporariamente devido a estresse psicológico e ao consumo de álcool, embora essas hipóteses não tenham sido documentadas como fatores ambientais precipitantes. Existem relatos de que as infecções virais precedam ou acompanhem a hipersonolência em cerca de 10% dos casos. Infecções virais como pneumonia por HIV, mononucleose infecciosa e síndrome de Guillain-Barré também podem evoluir para hipersonolência dentro de alguns meses depois da infecção. A hipersonolência poderá surgir também dentro de 6 a 18 meses após um traumatismo craniano.

 Genéticos e fisiológicos: A hipersonolência pode ser familiar, com um modo de herança autossômica dominante.

Marcadores Diagnósticos

A polissonografia noturna demonstra um período de duração do sono de normal a prolongado, latência curta e continuidade normal a aumentada do sono. A distribuição do sono REM também é normal. Na maior parte das vezes, a eficiência do sono é superior a 90%. Alguns indivíduos com transtorno de hipersonolência apresentam quantidades aumentadas de sono com ondas lentas. O teste de latência múltipla do sono registra a tendência ao sono, normalmente indicada por valores médios de latência do sono inferiores a 8 minutos. Geralmente, no transtorno de hipersonolência, a latência média do sono é inferior a 10 minutos e, com frequência, a 8 minutos ou menos. Períodos de REM no início do sono (PREMIS; i.e., ocorrência de sono REM dentro de 20 minutos após o início do sono) podem estar presentes, mas ocorrem menos de duas vezes em 4 ou 5 oportunidades de tirar um cochilo.

Consequências Funcionais do Transtorno de Hipersonolência

O baixo nível de alerta que ocorre enquanto um indivíduo combate a necessidade de dormir pode levar a eficiência reduzida, concentração diminuída e memória fraca durante as atividades diurnas. A hipersonolência pode resultar em desconforto significativo e em disfunção nas relações profissionais e sociais. Sono noturno prolongado e dificuldade para despertar podem dificultar o cumprimento das obrigações matinais, como, por exemplo, chegar ao trabalho no horário. Episódios involuntários de sono diurno podem ser desconcertantes e até perigosos se, por exemplo, o indivíduo estiver dirigindo ou operando uma máquina durante a ocorrência do episódio.

Diagnóstico Diferencial

 Variação normal do sono: O tempo de duração do sono “normal” varia consideravelmente na população em geral. “Pessoas com sono prolongado” (i.e., indivíduos que necessitam de uma quantidade de sono superior à média) não têm sonolência excessiva, inércia do sono ou comportamento automático se a quantidade necessária de sono noturno for suficiente. Os relatos indicam que o sono é revigorante. Os sintomas poderão aparecer durante o dia nas situações em que os compromissos sociais ou ocupacionais tornarem o sono mais curto. Ao contrário, o transtorno de hipersonolência apresenta sintomas de sonolência excessiva, seja qual for o tempo de duração do sono noturno. Quantidades inadequadas de sono noturno, ou síndrome de sono insuficiente induzida comportamentalmente, poderão produzir sintomas de sonolência diurna, muito semelhantes aos de hipersonolência. Um tempo médio de duração do sono inferior a 7 horas por noite sugere fortemente sono noturno inadequado, e uma média de mais de 9 a 10 horas de sono por 24 horas sugere a presença de hipersonolência. Geralmente, indivíduos com sono noturno inadequado “colocam o sono em dia”, com tempo de sono mais longo nos dias em que não tiverem compromissos sociais ou ocupacionais ou estiverem de férias. Diferentemente da hipersonolência, é improvável que o sono noturno insuficiente persista no mesmo ritmo durante décadas. O diagnóstico de transtorno de hipersonolência não se aplica nos casos em que houver alguma questão relacionada à adequação do tempo de duração do sono noturno. Com frequência, testes diagnósticos e terapêuticos de extensão do sono por 10 a 14 dias esclarecem o diagnóstico.

 Má qualidade do sono e fadiga: O transtorno de hipersonolência distingue-se de sonolência excessiva associada a qualidade ou quantidade insuficiente de sono e fadiga (i.e., cansaço não necessariamente aliviado pelo aumento na quantidade de sono e sem nenhuma relação com a quantidade e qualidade do sono). É extremamente difícil diferenciar sonolência excessiva e fadiga, e é possível que ocorra uma sobreposição considerável dessas condições.

 Transtornos do sono relacionados à respiração: Indivíduos com hipersonolência e transtornos do sono relacionados à respiração podem apresentar padrões semelhantes de sonolência excessiva. Os transtornos do sono relacionados à respiração são sugeridos por história de ronco alto, pausas respiratórias durante o sono, lesão cerebral ou doença cardiovascular e pela presença de obesidade, anormalidades anatômicas orofaríngeas, hipertensão ou insuficiência cardíaca por ocasião do exame físico. Os estudos polissonográficos podem confirmar a presença de eventos apneicos no transtorno do sono relacionado à respiração (e sua ausência no transtorno de hipersonolência).

 Transtorno do sono-vigília do ritmo circadiano: Com frequência, os transtornos do sono-vigília do ritmo circadiano caracterizam-se por sonolência diurna. Histórias de horários anormais de sono-vigília (com horários alternados ou irregulares) geralmente se aplicam a indivíduos com algum transtorno do sono-vigília do ritmo circadiano.

Parassonias: Raramente, as parassonias produzem sono noturno prolongado e sem perturbações ou sonolência diurna típica do transtorno de hipersonolência.

 Outros transtornos mentais: O transtorno de hipersonolência distingue-se dos transtornos mentais que incluem a hipersonolência como característica essencial ou associada. Em particular, as queixas de sonolência diurna ocorrem em episódios depressivos graves, com características atípicas, e na fase depressiva de um transtorno bipolar. A avaliação de outros transtornos mentais é imprescindível antes de se considerar o diagnóstico de transtorno de hipersonolência. O diagnóstico de hipersonolência poderá ser definido na presença de outros transtornos mentais atuais ou passados.

Comorbidade

A hipersonolência pode ocorrer em associação com transtornos depressivos, transtornos bipolares (durante um episódio depressivo) e transtornos depressivos maiores com padrão sazonal. Muitos indivíduos com transtorno de hipersonolência apresentam sintomas de depressão que podem se enquadrar nos critérios de transtorno depressivo. Essa apresentação pode se relacionar às consequências psicossociais da necessidade persistente de aumentar a quantidade de sono. Indivíduos com transtorno de hipersonolência correm também o risco de apresentar transtornos relacionados ao uso de substâncias, em particular os transtornos relacionados à automedicação com estimulantes. Essa falta de especificidade geral pode contribuir para perfis muito heterogêneos entre os indivíduos cujos sintomas satisfazem o mesmo critério diagnóstico para transtorno de hipersonolência. Condições neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson e a atrofia multissistêmica, podem também estar associadas à hipersonolência.

Relação com a Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono

A segunda edição da Classificação internacional dos distúrbios do sono (CIDS-2) faz a distinção entre nove subtipos de “hipersonolência de origem central”, incluindo hipersonolência recorrente (síndrome de Kleine-Levin).

 

Fonte: DSM-V

O texto acima possui caráter exclusivamente informativo. Jamais empreenda qualquer tipo de tratamento ou se automedique sem a orientação de um especialista.
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