Transtorno de Escoriação (Skin-picking)

Transtorno de Escoriação (Skin-picking)

Skin-picking Dr. Gabriel Lopes Psiquiatra

Critérios Diagnósticos

  1. Beliscar a pele de forma recorrente, resultando em lesões.
  2. Tentativas repetidas de reduzir ou parar o comportamento de beliscar a pele.
  3. O ato de beliscar a pele causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
  4. O ato de beliscar a pele não se deve aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., cocaína) ou a outra condição médica (p. ex., escabiose).
  5. O ato de beliscar a pele não é mais bem explicado pelos sintomas de outro transtorno mental (p. ex., delírios ou alucinações táteis em um transtorno psicótico, tentativas de melhorar um defeito ou falha percebida na aparência no transtorno dismórfico corporal, estereotipias no transtorno de movimento estereotipado ou intenção de causar danos a si mesmo na autolesão não suicida).

Características Diagnósticas

A característica essencial do transtorno de escoriação (skin-picking) é o beliscar recorrente da própria pele (Critério A). Os locais mais comumente beliscados são rosto, braços e mãos, porém muitos indivíduos beliscam múltiplas partes do corpo. Podem beliscar pele saudável, irregularidades menores na pele, lesões como espinhas ou calosidades ou cascas de lesões anteriores. A maioria das pessoas belisca com as unhas, embora muitas usem pinças, alfinetes ou outros objetos. Além de beliscar a pele, pode haver comportamentos de esfregar, espremer e morder. Os indivíduos com transtorno de escoriação frequentemente passam quantidades significativas de tempo em seu comportamento de beliscar, às vezes várias horas por dia, e esse comportamento pode durar meses ou anos. O Critério A requer que o beliscar a pele provoque lesões cutâneas, embora os indivíduos com o transtorno com frequência tentem esconder ou camuflar essas lesões (p. ex., com maquiagem ou com roupas). Essas pessoas já fizeram repetidas tentativas de reduzir ou parar de beliscar a pele (Critério B).

O Critério C indica que beliscar a pele causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. O termo sofrimento inclui afetos negativos que podem ser experimentados por aqueles que beliscam a pele, tais como sensação de perda de controle, constrangimento e vergonha. Pode ocorrer prejuízo significativo em várias áreas diferentes de funcionamento (p. ex., social, profissional acadêmica e lazer), em parte devido à evitação de situações sociais.

Características Associadas que Apoiam o Diagnóstico

O comportamento de beliscar a pele pode ser acompanhado de uma gama de comportamentos ou rituais envolvendo a pele ou cascas de ferida. Assim, os indivíduos podem procurar por um tipo particular de casca de ferida para arrancar e podem examinar, brincar ou colocar na boca ou engolir a pele depois de arrancada. O ato de beliscar a pele também pode ser precedido ou acompanhado por vários estados emocionais. O comportamento pode ser desencadeado por sentimentos de ansiedade ou tédio, pode ser precedido por uma tensão crescente (seja imediatamente antes de beliscar a pele, seja quando tenta resistir ao impulso de beliscar) e pode levar a gratificação, prazer ou um sentimento de alívio quando a pele ou casca foram arrancadas. Algumas pessoas relatam que beliscam em resposta a uma irregularidade menor na pele ou para aliviar uma sensação corporal desconfortável. Não costuma ser relatada dor acompanhando o beliscar da pele. Alguns indivíduos se engajam em beliscar a pele de forma mais focada (i.e., precedido por tensão e com posterior alívio), enquanto outros se engajam de forma mais automática (i.e., quando ocorre o beliscar da pele sem tensão precedente e sem a consciência completa), e muitos têm um misto de ambos os estilos comportamentais. O ato de beliscar a pele geralmente não ocorre na presença de outros indivíduos, exceto membros da família imediata. Alguns relatam beliscar a pele de outras pessoas.

Prevalência

Na população em geral, a prevalência durante a vida do transtorno de escoriação em adultos é de 1,4% ou um pouco mais. Mais de três quartos dos indivíduos com o transtorno são do sexo feminino. Isso provavelmente reflete a verdadeira proporção da condição entre os gêneros, embora também possa refletir diferenças na procura de tratamento com base nas atitudes de gênero e da cultura em relação à aparência.

Desenvolvimento e Curso

Embora indivíduos de várias idades possam apresentar transtorno de escoriação, beliscar a pele tem seu início mais frequentemente durante a adolescência, em geral coincidindo ou logo após o início da puberdade. O transtorno com frequência começa com uma condição dermatológica, como acne. Os locais onde o indivíduo belisca a pele podem variar com o tempo. O curso em geral é crônico, com algumas remissões e recidivas se não tratado. Para algumas pessoas, o transtorno pode ir e vir por semanas, meses ou anos.

Fatores de Risco e Prognóstico

Genéticos e fisiológicos. O transtorno de escoriação é mais comum em indivíduos com TOC e em membros da sua família de primeiro grau do que na população em geral.

Marcadores Diagnósticos

A maioria dos indivíduos com transtorno de escoriação admite beliscar a pele; portanto, o diagnóstico dermatopatológico raramente é necessário. No entanto, o transtorno pode ter características próprias na histopatologia.

Consequências Funcionais do Transtorno de Escoriação (Skin-picking)

O transtorno de escoriação está associado a sofrimento e também a prejuízo social e profissional. A maioria dos indivíduos com essa condição gasta no mínimo uma hora por dia beliscando a pele, pensando em beliscá-la e resistindo ao impulso de fazê-lo. Muitos relatam evitação de eventos sociais ou de entretenimento, bem como sair em público. A maioria das pessoas com o transtorno também relata experimentar interferência do beliscar a pele no trabalho com uma frequência no mínimo diária ou semanal. Uma proporção significativa de estudantes com transtorno de escoriação relata ter faltado à escola, ter experimentado dificuldades no manejo das responsabilidades na escola ou ter tido dificuldades de estudar devido ao comportamento de beliscar a pele. As complicações médicas de beliscar a pele incluem danos ao tecido, cicatrizes e infecção e podem ser ameaçadoras à vida. Raramente foi relatada sinovite do punho devido ao comportamento crônico de beliscar. Beliscar a pele comumente resulta em dano significativo aos tecidos e em cicatrizes. Com frequência, exige tratamento antibiótico para infecção e eventualmente pode requerer cirurgia.

Diagnóstico Diferencial

 Transtorno psicótico: O comportamento de beliscar a pele pode ocorrer em resposta a um delírio (i.e., parasitose) ou alucinação tátil (i.e., formigamento) em um transtorno psicótico. Em tais casos, o transtorno de escoriação não deve ser diagnosticado.

Outros transtornos obsessivo-compulsivos e transtornos relacionados: Compulsões por lavagem excessiva em resposta a obsessões com contaminação em indivíduos com TOC podem levar a lesões cutâneas, e beliscar a pele pode ocorrer em indivíduos com transtorno dismórfico corporal, que beliscam sua pele unicamente devido a preocupações com a aparência; nesses casos, o transtorno de escoriação não deve ser diagnosticado. A descrição do transtorno de comportamento repetitivo focado no corpo em outro transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno relacionado especificado exclui indivíduos cujos sintomas satisfazem os critérios para o transtorno de escoriação.

Transtornos do neurodesenvolvimento: Embora o transtorno do movimento estereotipado possa ser caracterizado pelo comportamento repetitivo de automutilação, seu início é em período precoce do desenvolvimento. Por exemplo, indivíduos com a condição neurogenética da síndrome de Prader-Willi podem ter início precoce do comportamento de beliscar a pele, e seus sintomas podem satisfazer os critérios para transtorno do movimento estereotipado. Embora os tiques em pessoas com transtorno de Tourette possam levar à automutilação, o comportamento não é semelhante aos tiques no transtorno de escoriação.

Transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados: O transtorno de escoriação não é diagnosticado quando a lesão cutânea deve-se primariamente aos comportamentos enganosos no transtorno factício.

Outros transtornos: O transtorno de escoriação não é diagnosticado se o beliscar da pele é principalmente atribuído à intenção de ferir-se que é característica da automutilação não suicida.

Outras condições médicas: O transtorno de escoriação não é diagnosticado se o beliscar a pele é principalmente atribuído a outra condição médica. Por exemplo, a escabiose é uma condição dermatológica invariavelmente associada a coceira grave e arranhões. No entanto, o transtorno de escoriação pode ser precipitado ou exacerbado por uma condição dermatológica subjacente. Por exemplo, acne pode levar a coçar e arrancar, o que também pode ser associado ao transtorno de escoriação comórbido. A diferenciação entre essas duas situações clínicas (acne com coceira e beliscar vs. acne com transtorno de escoriação comórbido) requer uma avaliação de até que ponto o beliscar a pele do indivíduo se tornou independente da condição dermatológica subjacente.

Transtornos induzidos por substâncias/medicamentos: Os sintomas de beliscar a pele também podem ser induzidos por certas substâncias (p. ex., cocaína), em cujo caso o transtorno de escoriação não deve ser diagnosticado. Se esse beliscar da pele é clinicamente significativo, então um diagnóstico de transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno relacionado induzido por substância/medicamento deve ser considerado.

Comorbidade

O transtorno de escoriação é com frequência acompanhado de outros transtornos mentais. Estes incluem TOC e tricotilomania (transtorno de arrancar o cabelo), bem como transtorno depressivo maior. Outros sintomas repetitivos focados no corpo, além de beliscar a pele e arrancar o cabelo (p. ex., roer as unhas), ocorrem em muitos indivíduos com transtorno de escoriação e podem merecer um diagnóstico adicional de outro transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno relacionado especificado (i.e., transtorno de comportamento repetitivo focado no corpo).

 

Fonte: DSM-V

O texto acima possui caráter exclusivamente informativo. Jamais empreenda qualquer tipo de tratamento ou se automedique sem a orientação de um especialista.
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