Transtorno de Acumulação

Transtorno de Acumulação

Transtorno de Acumulação Dr. Gabriel Lopes Psiquiatra

Critérios Diagnósticos

  1. Dificuldade persistente de descartar ou de se desfazer de pertences, independentemente do seu valor real.
  2. Esta dificuldade se deve a uma necessidade percebida de guardar os itens e ao sofrimento associado a descartá-los. C. A dificuldade de descartar os pertences resulta na acumulação de itens que congestionam e obstruem as áreas em uso e compromete substancialmente o uso pretendido. Se as áreas de estar não estão obstruídas, é somente devido a intervenções de outras pessoas (p. ex., membros da família, funcionários de limpeza, autoridades).
  3. A acumulação causa sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (incluindo a manutenção de um ambiente seguro para si e para os outros).
  4. A acumulação não é devida a outra condição médica (p. ex., lesão cerebral, doença cerebrovascular, síndrome de Prader-Willi). F. A acumulação não é mais bem explicada pelos sintomas de outro transtorno mental (p. ex., obsessões no transtorno obsessivo-compulsivo, energia reduzida no transtorno depressivo maior, delírios na esquizofrenia ou outro transtorno psicótico, déficits cognitivos no transtorno neurocognitivo maior, interesses restritos no transtorno do espectro autista).

Especificar se:

Com aquisição excessiva: Se a dificuldade de descartar os pertences está acompanhada pela aquisição excessiva de itens que não são necessários ou para os quais não existe espaço disponível.

Especificar se:

Com insight bom ou razoável: O indivíduo reconhece que as crenças e os comportamentos relacionados à acumulação (relativos à dificuldade de descartar itens, à obstrução ou à aquisição excessiva) são problemáticos.

Com insight pobre: O indivíduo acredita que as crenças e os comportamentos relacionados à acumulação (relativos à dificuldade de descartar itens, à obstrução ou à aquisição excessiva) não são problemáticos apesar das evidências em contrário.

Com insight ausente/crenças delirantes: O indivíduo está completamente convencido de que as crenças e os comportamentos relacionados à acumulação (relativos à dificuldade de descartar itens, à obstrução ou à aquisição excessiva) não são problemáticos apesar das evidências em contrário.

Especificadores

Com aquisição excessiva. Aproximadamente 80 a 90% dos indivíduos com transtorno de acumulação exibem aquisição excessiva. A forma mais frequente de aquisição são as compras excessivas, seguidas pela aquisição de itens gratuitos (p. ex., panfletos, itens descartados por outros). Roubar é menos comum. Alguns indivíduos podem negar a aquisição excessiva quando são avaliados inicialmente, embora mais tarde ela possa aparecer durante o curso do tratamento. As pessoas com transtorno de acumulação geralmente experimentam sofrimento se não conseguem ou são impedidas de adquirir itens.

Características Diagnósticas

A característica essencial do transtorno de acumulação são as dificuldades persistentes de descartar ou se desfazer de pertences, independentemente do seu valor real (Critério A). O termo persistente indica uma dificuldade permanente em vez de circunstâncias vitais mais transitórias que podem levar ao acúmulo excessivo, como herdar uma propriedade. A dificuldade em descartar pertences observada no Critério A refere-se a qualquer forma de descarte, incluindo jogar fora, vender, dar ou reciclar. As principais razões dadas para essas dificuldades são a utilidade percebida ou o valor estético dos itens ou um forte apego sentimental aos pertences. Alguns indivíduos se sentem responsáveis pelo destino dos seus pertences e com frequência se esforçam muito para evitar o desperdício. O medo de perder informações importantes também é comum. Os itens mais comumente guardados são jornais, revistas, roupas velhas, bolsas, livros, correspondência e papelada, mas praticamente qualquer item pode ser guardado. A natureza dos itens não está limitada aos pertences que a maior parte das outras pessoas definiria como inúteis ou de valor limitado. Muitos indivíduos juntam e também guardam muitas coisas valiosas, as quais com frequência são encontradas em pilhas misturadas com outros itens menos valiosos.

Os indivíduos com transtorno de acumulação guardam intencionalmente os pertences e experimentam sofrimento quando enfrentam a perspectiva de descartá-los (Critério B). Esse critério enfatiza que guardar os pertences é intencional, o que discrimina o transtorno de acumulação de outras formas de psicopatologia que são caracterizadas pela acumulação passiva de itens ou pela ausência de sofrimento quando os pertences são removidos.

Os indivíduos acumulam muitos itens que se empilham e obstruem áreas em uso a ponto de sua utilização pretendida não ser mais possível (Critério C). Por exemplo, o indivíduo pode não conseguir preparar alimentos na cozinha, dormir na sua cama ou sentar em uma cadeira. Se o espaço pode ser usado, é somente com grande dificuldade. Obstrução é definida como um grande grupo de objetos em geral não relacionados ou marginalmente relacionados empilhados juntos de forma desorganizada em espaços designados para outros propósitos (p. ex., em cima de mesas, no chão, no corredor). O Critério C enfatiza as áreas de estar “ativas” da casa, em vez de áreas mais periféricas, como garagens, sótãos ou porões, que às vezes ficam obstruídas nas casas de pessoas sem o transtorno. Entretanto, os indivíduos com transtorno de acumulação com frequência têm pertences que se espalham além das áreas em uso e podem ocupar e prejudicar a utilização de outros espaços, como veículos, pátios, o ambiente de trabalho e as casas de amigos e parentes. Em alguns casos, as áreas de estar podem estar desobstruídas devido à intervenção de outras pessoas (p. ex., membros da família, funcionários de limpeza, autoridades locais). Os indivíduos que foram forçados a limpar suas casas ainda têm um quadro de sintomas que satisfaz os critérios para transtorno de acumulação, porque a ausência de obstrução deve-se à intervenção de outras pessoas. O transtorno de acumulação contrasta com o comportamento normal de colecionar, que é organizado e sistemático, mesmo que em alguns casos a quantidade real de pertences possa ser similar à quantidade acumulada por uma pessoa com transtorno de acumulação. A atividade de colecionar normal não produz obstrução, sofrimento ou prejuízo típicos do transtorno de acumulação.

Os sintomas (i.e., dificuldades de descartar e/ou obstrução) devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do sujeito, incluindo a manutenção de um ambiente seguro para si e para os outros (Critério D). Em alguns casos, particularmente quando existe insight pobre, o indivíduo pode não relatar sofrimento, e o prejuízo pode ser evidente somente para aqueles que estão próximos. No entanto, qualquer tentativa de outras pessoas de descartar ou limpar os pertences resulta em altos níveis de sofrimento.

Características Associadas que Apoiam o Diagnóstico

Outras características comuns do transtorno de acumulação incluem indecisão, perfeccionismo, esquiva, procrastinação, dificuldade de planejar e organizar tarefas e distratibilidade. Alguns indivíduos com o transtorno vivem em condições insalubres que podem ser uma consequência lógica de espaços gravemente obstruídos e/ou que estão relacionados a dificuldades de planejamento e organização. Acumulação de animais pode ser definida como a acumulação muitos animais e a falha em proporcionar padrões mínimos de nutrição, saneamento e cuidados veterinários e em agir sobre a condição deteriorante dos animais (incluindo doenças, fome ou morte) e do ambiente (p. ex., superpopulação, condições extremamente insalubres). A acumulação de animais pode ser uma manifestação especial do transtorno de acumulação. A maioria dos indivíduos que acumula animais também acumula objetos inanimados. As diferenças mais proeminentes entre a acumulação de animais e de objetos são a extensão das condições insalubres e o insight mais pobre na acumulação de animais.

Prevalência

Estudos de prevalência nacionalmente representativos do transtorno de acumulação não estão disponíveis. Pesquisas comunitárias estimam que a prevalência ponto de acumulação clinicamente significativa nos Estados Unidos e na Europa seja de aproximadamente 2 a 6%. O transtorno de acumulação afeta ambos os sexos, mas alguns estudos epidemiológicos relataram uma prevalência significativamente maior em indivíduos do sexo masculino. Isso contrasta com as amostras clínicas, nas quais a predominância é feminina. Os sintomas de acumulação parecem ser quase três vezes mais prevalentes em adultos mais velhos (55 a 94 anos) comparados com adultos mais jovens (33 a 44 anos).

Desenvolvimento e Curso

A acumulação parece iniciar cedo na vida e estender-se até os estágios finais. Os sintomas de acumulação podem emergir inicialmente em torno dos 11 aos 15 anos de idade, começam a interferir no funcionamento diário do indivíduo na metade da década dos 20 anos e causam prejuízo clinicamente significativo por volta da metade da década dos 30 anos. Os participantes de estudos de pesquisa clínica estão geralmente na década dos 50 anos. Assim, a gravidade da acumulação aumenta a cada década da vida. Depois de iniciados os sintomas, o curso da acumulação é com frequência crônico, com poucos indivíduos relatando um curso com remissões e recidivas.

A acumulação patológica em crianças parece ser facilmente distinguida de comportamentos de poupar e colecionar adaptativos de acordo com o nível do desenvolvimento. Como as crianças e os adolescentes geralmente não controlam o ambiente em que vivem e os comportamentos de descarte, a possível intervenção de outras pessoas (p. ex., os pais mantendo os espaços utilizáveis e, assim, reduzindo a interferência) deve ser considerada quando é feito o diagnóstico.

Fatores de Risco e Prognóstico

Temperamentais: A indecisão é uma característica proeminente dos indivíduos com transtorno de acumulação e em seus parentes de primeiro grau.

Ambientais: Os indivíduos com transtorno de acumulação com frequência relatam retrospectivamente eventos vitais estressantes e traumáticos precedendo o início do transtorno ou causando uma exacerbação.

Genéticos e fisiológicos: O comportamento de acumulação é familiar, com cerca de 50% dos indivíduos que acumulam relatando ter um parente que também acumula. Estudos de gêmeos indicam que aproximadamente 50% da variabilidade no comportamento de acumulação deve-se a fatores genéticos aditivos.

Questões Diagnósticas Relativas à Cultura

Embora a maior parte das pesquisas tenha sido feita em países e comunidades urbanas industrializadas do Ocidente, os dados disponíveis de países não ocidentais e em desenvolvimento sugerem que a acumulação é um fenômeno universal com características clínicas consistentes.

Questões Diagnósticas Relativas ao Gênero

As principais características do transtorno de acumulação (i.e., dificuldades de descartar, obstrução excessiva) são, em geral, comparáveis em ambos os sexos, porém indivíduos do sexo feminino tendem a exibir aquisição mais excessiva, particularmente o comprar excessivo.

Consequências Funcionais do Transtorno de Acumulação

A obstrução prejudica as atividades básicas, como transitar pela casa, cozinhar, limpar, fazer a higiene pessoal e até mesmo dormir. Os aparelhos podem estar quebrados, e serviços como água e eletricidade podem estar desligados, já que o acesso para o trabalho de conserto pode ser difícil. A qualidade de vida está, com frequência, consideravelmente prejudicada. Em casos graves, a acumulação pode colocar os indivíduos em risco de incêndio, de cair (especialmente indivíduos idosos), bem como submetê-los a condições sanitárias deficientes e a outros riscos à saúde. O transtorno de acumulação está associado a prejuízo profissional, saúde física deficiente e intensa utilização do serviço social. As relações familiares com frequência estão sob grande tensão. O conflito com os vizinhos e as autoridades locais é comum, e uma proporção substancial dos indivíduos com transtorno de acumulação grave esteve envolvida em procedimentos legais de despejo, sendo que alguns têm história de despejo.

Diagnóstico Diferencial

Outras condições médicas: O transtorno de acumulação não é diagnosticado se os sintomas são considerados consequência direta de outra condição médica (Critério E), como lesão cerebral traumática, ressecção cirúrgica para tratamento de um tumor ou controle de convulsões, doença cerebrovascular, infecções do sistema nervoso central (p. ex., encefalite por herpes simples), ou de condições neurogenéticas, como a síndrome de Prader-Willi. Danos aos córtices pré-frontal ventromedial anterior e cingulado foram particularmente associados à acumulação excessiva de objetos. Nesses indivíduos, o comportamento de acumulação não está presente antes do início da lesão cerebral e surge logo após a ocorrência desta. Algumas dessas pessoas parecem ter pouco interesse nos itens acumulados e são capazes de descartá-los com facilidade ou não se importam se outros os descartam, enquanto outras parecem ser muito relutantes em descartar qualquer coisa.

Transtornos do neurodesenvolvimento: O transtorno de acumulação não é diagnosticado se a acumulação de objetos é considerada consequência direta de um transtorno do neurodesenvolvimento, como um transtorno do espectro autista ou deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual).

Transtornos do espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos: O transtorno de acumulação não é diagnosticado se a acumulação de objetos é considerada consequência direta de delírios ou sintomas negativos no espectro da esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos.

Episódio depressivo maior: O transtorno de acumulação não é diagnosticado se a acumulação de objetos é considerada consequência direta de retardo psicomotor, fadiga ou perda da energia durante um episódio depressivo maior.

Transtorno obsessivo-compulsivo: O transtorno de acumulação não é diagnosticado se os sintomas são considerados consequência direta de obsessões ou compulsões típicas, como medos de contaminação, de ferimentos ou sentimentos de incompletude no TOC. Os sentimentos de incompletude (p. ex., perder a identidade ou ter de documentar e preservar todas as experiências de vida) são os sintomas mais frequentes de TOC associados a essa forma de acumulação. A acumulação de objetos também pode ser resultado de rituais onerosos de esquiva persistente (p. ex., não descartar objetos para evitar rituais intermináveis de lavagem e verificação).

No TOC, o comportamento é, em geral, indesejado e altamente angustiante, e o indivíduo não experimenta prazer ou recompensa com ele. A aquisição excessiva geralmente não está presente; se está, os itens são adquiridos devido a uma obsessão específica (p. ex., a necessidade de comprar itens que foram tocados acidentalmente para evitar a contaminação de outras pessoas), e não devido a um desejo genuíno de possuir os itens. Os indivíduos que acumulam no contexto do TOC também têm mais probabilidade de acumular itens bizarros, como lixo, fezes, urina, unhas, cabelo, fraldas usadas ou comida estragada. A acumulação desses itens é muito incomum no transtorno de acumulação.

Quando a acumulação grave aparece concomitantemente a outros sintomas típicos de TOC, mas é considerada independente desses sintomas, ambos devem ser diagnosticados, transtorno de acumulação e TOC.

Transtornos neurocognitivos: O transtorno de acumulação não é diagnosticado se a acumulação de objetos é considerada consequência direta de um transtorno degenerativo, como o transtorno neurocognitivo associado à degeneração frontotemporal ou à doença de Alzheimer. Geralmente, o início do comportamento de acumulação é gradual e acompanha o início do transtorno neurocognitivo. O comportamento de acumulação pode ser acompanhado de negligência para consigo mesmo e degradação doméstica grave, em conjunto com outros sintomas neuropsiquiátricos, como desinibição, jogo patológico, rituais/estereotipias, tiques e comportamentos de autoflagelação.

Comorbidade

Aproximadamente 75% dos indivíduos com transtorno de acumulação têm um transtorno do humor ou de ansiedade comórbido. As condições comórbidas mais comuns são transtorno depressivo maior (até 50% dos casos), transtorno de ansiedade social (fobia social) e transtorno de ansiedade generalizada. Cerca de 20% dos indivíduos com transtorno de acumulação também têm sintomas que satisfazem os critérios para TOC. Essas comorbidades podem, com frequência, ser a razão principal para consulta, porque os indivíduos provavelmente não relatarão de forma espontânea os sintomas de acumulação, e estes frequentemente não são investigados nas entrevistas clínicas de rotina.

 

Fonte: DSM-V

O texto acima possui caráter exclusivamente informativo. Jamais empreenda qualquer tipo de tratamento ou se automedique sem a orientação de um especialista.
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